Fotos de Guerra
Minhas fotos de guerra estão a apenas uns cliques de distância, arquivadas em um disco rígido onde guardo também arquivos PDF de recibos velhos de impostos. Raramente olho para elas. Não por serem gráficas em excesso, embora muitas sejam, nem por não pensar, às vezes, no tempo que passei no Iraque em 2007 e 2008, quando o país estava se dilacerando de modo frenético. Como boas guerrilheiras, as memórias daqueles dias espreitam e aparecem somente nos dias e lugares que escolhem.

Apesar de sua proximidade, as fotos em si estão perdendo seu poder sobre mim – como se houvessem sido tiradas por outra pessoa, com outras mãos e olhos. Quando me pediram, não faz muito tempo, para expor algumas fotos minhas do Iraque em uma exposição de arte em benefício de fotógrafos de guerra feridos, era como se tivessem me pedido emprestadas as chuteiras de beisebol dos tempos de escola. Aquelas coisas juntando poeira? Pode pegar.
Uma das primeiras pessoas que conheci em Bagdá, na primavera de 2007, foi o fotógrafo freelancer Dmitry Chebotayev, um russo amável que nos ajudou a passar por alguns postos de controle na Zona Verde, à época dirigidos por um contingente polonês da “coalizão da vontade”. Ele contou que, antes de sair de Moscou, dissera à sua mãe que voltaria à Chechênia, e não ao Iraque, com a intenção de confortá-la.
Eu estava no Iraque como escritor, não como fotógrafo. De início, era apenas um hobby, até que me tornei bom nisso. A revista para a qual trabalhava pagou fotógrafos freelancer para me acompanhar em minhas duas primeiras viagens, mas, na terceira, minhas fotos já eram boas o suficiente para publicação e a empresa deu-me uns dólares extras para substituir as lentes destruídas pela fricção constante e pela areia fina do deserto.
Poucas semanas de conhecer Chebotayev, já de volta ao meu escritório sem janelas em Washington, D.C., enquanto digitava uma história, ouvi que ele morrera em uma explosão. A Associated Press descreveu a bomba que destruiu o veículo onde ele estava como “enorme”.
A última vez que o vi, apanhava umas garrafas de Gatorade azul numa geladeira, antes de pôr seu capacete verde de batalha e colete à prova de balas e sair correndo pela porta do Coalition Press and Information Center (Centro de Imprensa e Informação da Coalizão) para pular em um helicóptero. Um ano depois, não muito distante daquela geladeira, vi sua foto em um cartaz ao lado de dúzias de outros repórteres mortos na guerra. A maioria era de iraquianos e não dispunham da proteção de coletes à prova de balas, soldados armados, ou o veículo blindado Stryker que Dima dirigia.
Vi muito do Iraque de dentro de veículos, terrestres e aéreos. Em um dia quente de primavera, voei com o comandante de Track Palin (sim, esse Palin) em um helicóptero sobre as ruínas das “casas das suicidas” em Dyala. Tirei uma foto dele inclinando-se para fora do helicóptero com uma lente olho-de-peixe. A foto causou-lhe problemas por não estar usando capacete.
Lembro-me de uma viagem pela infame estrada até o aeroporto, no sedan blindado do New York Times, com as cortinas fechadas e o motorista sul-africano examinando com os dedos os dispositivos de segurança das pistolas automáticas de cada lado do seu assento. Um fotógrafo americano oferecera-me uma carona.
Ainda mantemos contato, esse fotógrafo e eu. Porém, nossos e-mails sofrem de uma curiosa limitação de vocabulário. Como se nossos temas de conversa fossem circunscritos às mesmas piadas que contávamos um ao outro, cinco anos atrás, a mil milhas de distância, encolhendo-nos em um abrigo de concreto, enquanto morteiros explodiam a nossa volta. Piadas para mantê-los longe de nós e mais perto de qualquer outra pessoa na Base Kalsu, que recebeu esse nome, de forma irônica, por causa de um soldado americano morto no Vietnã em um ataque de morteiros.
Minhas fotografias favoritas vieram durante as incursões. Em uma ocasião, viajei com um grupo de soldados em patrulha quando encontramos um jovem, que disse aos soldados – em um rasgo de honestidade – que gostaria que eles deixassem seu país. Os soldados revistaram sua casa durante horas, abrindo cada gaveta, armário, caixa de fósforos.
Ataram suas mãos com pedaços de plástico pela posse de peças de rádio desmontadas – contrabando. Ele disse ser estudante de engenharia. Os soldados apontaram-no como construtor de bombas. Tirei uma foto de seu pai chorando em oração na sala enquanto levavam o filho.
Uma vez puxei conversa com um soldado que era artilheiro traseiro. Ele deixou-me experimentar seu capacete equipado com radio e pôr a cabeça para fora do rápido veículo blindado. Ele disse que também havia tirado várias fotografias, muitas delas de pessoas que matara. Zarqa. Outros lugares também. Gostaria de ver? Deu-me um disco com centenas de suas fotos. Mostre a eles em casa como é, ele disse. Pornografia da guerra, como os soldados chamavam. Todos tinham.
Uma noite ele estava sentado em sua escotilha quando um atirador de elite acertou-o na têmpora. No funeral, eu disse à sua esposa que o marido me dera muitas fotos antes de morrer. Um dia, ela me disse, gostaria de vê-las. Quando o Exército devolveu o laptop do soldado a sua esposa, estava limpo de qualquer vestígio de informação digital – procedimento padrão. Ela nunca me pediu para ver o que o Exército apagara.
Muitas pessoas não percebem que a parte mais importante do kit de um jornalista de guerra – o colete à prova de balas – tem uma vida útil surpreendentemente curta. As placas de cerâmica que detêm os estilhaços e balas retêm sua integridade máxima por apenas alguns anos, após o que estão sujeitas a fraturas terminais. O que significa que, se eu algum dia voltar para uma zona de guerra, o colete que agora repousa sob a minha cama em uma mochila azul não me adiantará muito. Já mudei de casa, emprego e cidade desde a última vez em que abri a bolsa. No entanto, simplesmente não consigo jogá-la fora. Para irritação de minha esposa, mantenho-a sob nossa cama, como a ervilha de Hans Christian Andersen.
É claro que, se a história tivesse sido um pouco diferente, talvez eu tivesse que explicar o conteúdo daquela mochila azul para algum soldado estrangeiro revistando nossa casa à procura de contrabando, gritando em uma língua estrangeira, apertando sua arma e esperando voltar à base inteiro. Por que, perguntaria decerto, eu tinha essas coisas sob a cama? Eu era um militante? E por que tanta pornografia da guerra no computador? Talvez os soldados tivessem um fotojornalista com eles, esperando tirar algumas boas fotos.